Cantinho do Landinho


18/01/2015


Alguém chamado Wolinski

Tinha 19 anos. O ano 1971. Havia uma publicação nas bancas de jornal de periodicidade mensal chamada “Grilo”. Era uma revista com tiras do Snoopy e Charlie Brown, o Reizinho, Zé do Boné. Mas trazia alguns cartunistas desconhecidos do “underground” americano e europeu. Havia também as aventuras em quadrinhos da sensual Valentina criação do italiano Guido Crepax. Outro quadrinho sensual era de Paulette criação de Georges Pichard e Georges Wolinski. Sempre havia um cartoon de Wolinski que retratava de forma irreverente uma charge ligada ao sexo. Quando adquiria a revista já folheava aquelas páginas em preto e branco para dar algumas risadas das charges deste gênio Wolinski. Em alguns números da revista Playboy nacional apareceram estas charges.
Infelizmente esta revista teve uma vida efêmera, duraram uns 48 números, uma revista de quadrinhos de vanguarda dirigida ao público adulto. Eram tempos do regime militar com sua censura e truculência. O material da revista foi classificado como “atentatório à moral e aos bons costumes”, e os jornalistas por trás da empreitada também atraíram a atenção dos órgãos de repressão, já que muitos estavam engajados nas lutas contra o sistema.

E assim deixei de ver as tiradas geniais do Wolinski. Mas no dia 7 de janeiro de 2015, Georges Wolinski foi assassinado por radicais islamistas na redação do jornal Charlie Hebdo durante um ataque terrorista que vitimou outros cartunistas do mesmo jornal.

Sou favorável à liberdade de expressão. Mas acho que o bom senso deva sempre prevalecer. Questões politicas, religiosas e futebolísticas são sempre controversas. Não pode haver radicalismo, pois as coisas fogem de controle, entramos num terreno cego onde inexiste o diálogo.

Por causa disso não aderi à campanha “Je suis Charlie”. Acho que as charges do jornal foram radicais demais mexendo com o povo islâmico. Também acho que matar como retaliação é uma forma mais insana.

O papa Francisco defendeu o direito de expressão, mas disse ser errado provocar os outros ao insultar a religião alheia. "A liberdade religiosa e a liberdade de expressão são ambos direitos fundamentais", disse o Papa, antes de proferir uma outra declaração definitiva: "Não se pode matar em nome de Deus. Matar em nome de Deus é uma aberração."

Apenas quis fazer uma referência a uma pessoa que na minha juventude alegrou-me com suas charges inteligentes. Teve uma obra interessante e irreverente.

Escrito por Orlando Stampacchio às 15h54
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